sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Cap. 4

4. Surpresa

 Peças de relógios estavam espalhadas pela bancada, onde Carolina trabalhava em algum projeto.
– Ah. Boa Noite feras. – Disse Carolina surpresa.
 Na direção oposta, viram jaulas, camas com amarras e medidores cardíacos (tanto a Julie, como o Junior, tinham más lembranças daquele lado do laboratório).
 Nos fundos, o velho computador e a máquina transmutadora, que estava coberta com um lençol branco. Junior e Julie notaram que lá também havia coisas novas, no meio do laboratório tinha uma mesa retangular, provavelmente onde faziam reuniões, havia também um aparelho de som, luzes de neon nas paredes e uma mini geladeira.
– Nunca pensei que ia sentir falta daqui. – Declarou Julie.
– Esse laboratório não mudou muito. – Disse Junior.
– Xandre? – Disse Anna.
 Ao avistar seu gato de estimação sair debaixo de uma estante, Anna foi até ele.
– Mas o que você tá fazendo aqui? – Perguntou Anna.
"Miau" Respondeu o gato. Anna o segurou nos braços e o encheu de carinho.
– Fala sério. Como ele consegue entrar aqui? – Perguntou Pedrinho.
– Que estranho – disse Carolina. – eu nem tinha reparado que ele estava aí.
– Já é a terceira vez essa semana! – Falou Alice.
– Meu gatinho é muito inteligente... e esperto! – Anna começou a beija-lo e logo depois começou a cuspir os pelos em sua boca.
 Quando o gato Xandre, notou a presença incomum de Julie e Junior, Julie ficou fascinada com a forma como ele a olhava, era diferente de qualquer gato que já encontrara. Com seus pequenos olhos azuis, ele a observava como uma criança curiosa, transmitindo raciocínio como se estivesse a analisando.
 Julie se aproximou e passou a mão no pelo dele, que ronronou inclinando a cabeça.
– Seu gato... – disse Julie. – Ele realmente é especial.
 Anna e Dennis notaram que Julie estava intrigada com algo em Xandre, lembraram-se de que nem mesmo Alice se dava bem com ele.
– Feras sentem-se, por favor. – pediu Dennis – A algo que vocês precisam saber.
– Antes... – disse Carolina que andava em direção a Julie e Junior, segurando uma pequena caixa de papelão.
– Vocês vão precisar disso. – Carolina estendeu a caixa para eles, dentro dela havia dois relógios cinza, cada um pegou um. – Esses são seus dispositivos R.N.G. (Relógio Neutralizador de Genes), vai ajudar a vocês controlarem a sua mutação, também podem usar para se comunicarem uns com os outros.
 Junior levantou a mão.
– Mostra as horas? – Carolina sorriu.
– Não! Mostra a previsão do tempo, é claro que... – Carolina suspirou. – Sim, mostra as horas sim.
– Será que eu posso perguntar... – disse Julie com cautela – por quê tem agulhinhas?
– Para funcionar, precisa ter contato com seu organismo.
 Julie e Junior sentaram-se na mesa, enquanto colocavam os dispositivos.
– Feras – disse Dennis – Tem algo de estranho que está acontecendo no estado do Ceará. Desaparecimentos misteriosos estão acontecendo em toda parte.
– De novo? – Perguntou Carolina.
– Sem dúvida, é uma nova onda de desaparecimentos... a um tempo atrás, quando eu recrutava com o Refugio dos Lobos, pessoas daqui do Ceará, estavam desaparecendo, mas não era a gente que estava causando isso.
– E você não faz ideia do que seja? – Perguntou Pedrinho.
– Não. Investiguei sobre esses desaparecimentos durante todo o meu período de aulas, mas não encontrei uma pista, nada!
 Dennis ligou um aparelho projetor e o mapa do estado do Ceará surgiu no telão.
– Tudo que sei é que os primeiros desaparecimentos começaram no município de Quixadá, logo depois chegou a capital em Crateús, depois nas cidades de Crato, Tianguá, Juazeiro do Norte, Iguatú, Sobral, Russas e agora chegou a Fortaleza.
– Eles seguem algum padrão, pelo menos? – Perguntou Julie.
– Isso! – Disse Anna como se também quisesse fazer a mesma pergunta. – O Refugio dos Lobos, por exemplo, eles levavam apenas crianças e adolescentes, esses sequestradores não seguem algum padrão desse tipo?
– Infelizmente não – respondeu Dennis –, as vitimas dos desaparecimentos são crianças, jovens, adultos, velhos, pessoas de todas as idades e de todas as classes sociais estão sumindo.
– Tá e vem cá – falou Alice –, ninguém nunca chegou a flagrar esses sequestros?
– Sim, mas esse é o lado mais misterioso da história. Todas as pessoas que testemunharam os sequestros ficaram... como eu posso eu dizer... eles não ficaram bem equilibrados ou vivos, para contar a história.
– Como assim? – Perguntou Carolina. – O que aconteceu com essas pessoas?
– Ninguém sabe ao certo, alguns simplesmente enlouqueceram, outros cometeram suicídio e outros... aconteceu as duas coisas.
– Foi isso que aconteceu com o Rogério da Silva? – Perguntou Anna.
– Isso mesmo. Ele presenciou o sequestro de sua esposa, ontem, aqui na cidade e acabou tendo um surto. Hoje mais cedo ele tentou cometer suicídio, tentei conseguir algumas informações dele, mas os humanos estragaram tudo, Rogério acabou se matando e o Garoto-Morcego levou a culpa.
 Os olhos de Alice brilharam.
– Ah, isso vai da uma ótima matéria para o Alice-Babado-Forte.com!
– Hãn? – Perguntou Dennis.
– É só o meu vlog.
 Julie perguntou:
– Mas esse cara, disse alguma coisa sobre os sequestradores?
– Não... não claramente, assim como todos as testemunhas que enlouqueceram, Rogério só se referia aos sequestradores como "eles".
– Nossa – murmurou Alice –, que esclarecedor!
– Dennis você disse que o último sequestro foi ontem, não foi? – Perguntou Anna. – Talvez ainda esteja na cidade, se sairmos agora para procurá-lo, talvez possamos pegá-lo.
– Seria uma boa tentativa Anna, mas creio que não. Como diz o ditado: um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Sempre que um desaparecimento é descoberto, o próximo acontece em outro lugar e nunca ocorreu de ter dois sequestros na mesma cidade. Por isso, acho que não devemos procurar no bairro Aldeota, quem levou a mulher do Rogério, já deve estar longe.
– Vou pesquisar sobre as últimas notícias – sugeriu Carolina – ver do que os humanos sabem e tentar encontrar alguma pista.
– Amanhã. – Disse Dennis – Essa noite, vamos fazer ronda, nossa missão será: patrulhar a cidade Fortaleza, por todos os lados, descobrir quem esta causando esses desaparecimentos e detê-lo, antes que os sequestros se espalhem para os outros estados.
– Ô chefe? – Chamou Junior.
– Sim? – Disse Dennis.
– Por quê a gente tem que partir nessa missão a essa hora da noite? Não pode ser amanhã de manhã?
 Todos levantaram murmúrios contra Junior, mas logo sessaram com a voz de Dennis.
– Não, Junior! Não podemos, segundo os relatos, os desaparecimentos ocorrem entre duas e três horas da manhã.
– Tá, então pra onde agente vai?
– Vamos nos separar pela cidade. Pedrinho e Carolina, vocês vão ficar no Jato Noturno e vão sobrevoar sobre todo o litoral da cidade, Alice e Junior vocês vão para a ponte do Rio Ceará.
 No mesmo instante, Alice abriu um enorme sorriso e emitiu um som semelhante ao de um rato.
– Eu e o Junior, sozinhos, sobre o luar, sozinhos, na ponte? A-DO-RO!
– Alice? – Disse Dennis – Vocês vão estar patrulhando, quero que fiquem de olho em quem entra e quem sai por aquela ponte, qualquer coisa que acharem suspeito, podem abordar, vocês me entenderam? – Alice respondeu:
– Sim, sim, claro! – Junior bocejou e disse:
– Sim, senhor.
– Ótimo, Anna e Julie vocês vão para a BR-116.
– Mas e você? – Perguntou Carolina.
– Vou patrulhar na zona sul da cidade.
– Você não vai sozinho – disse Anna –, vou com você.
– Anna tá tudo bem, eu posso...
– Não! Eu quero ir com você.
– Eu também! – Carolina deixou escapar.
 Todos se voltaram para ela, que forçou um sorriso e disse:
– Quer dizer, Pedrinho vamos logo ligar o jato? – Julie disse:
– Dennis, deixa a Anna ir com você, eu dou conta. – Dennis perguntou:
– Não se importa em ir sozinha? – Julie sorriu.
– Claro que não, contanto que nós dois façamos uma dupla na próxima missão.
 Julie de repente sentiu alguém cutucar com força no seu ombro, ela olhou para a sua direita e se assustou com o olhar flamejante de Carolina.
– Você já sabe usar o seu dispositivo R.N.G.? – Perguntou Carolina.
– Ahm, vou aprender. – Disse Julie com certo medo na voz.
– Muito bem – disse Dennis –, nos reencontramos aqui às quatro horas. Feras Noturnas, vamos partir.
 Todos fizeram conforme, Dennis havia mandado, Carolina e Pedrinho partiram no Jato Noturno, Junior e Alice foram para a ponte do Rio Ceará, Julie foi a BR-116 e Dennis e Anna foram em direção a região sul da cidade.
 O voo entre primos, foi divertido. Aquela noite, era a primeira vez em que Dennis e Anna voaram juntos de forma tranquila, na última vez em que Fênix e o Garoto-Morcego voaram juntos, foi uma espécie de brincadeira de pega-pega e não foi nada amigável. Os dois conheceram vários lugares da cidade, que não tiveram a oportunidade de conhecer durante suas missões.
 Depois de uma pequena corrida aérea, Dennis e Anna, aterrissaram na cobertura de um prédio.
– Minhas asas, estão mortas! – Disse Anna. – Mas valeu a pena, eu ganhei de você.
– Não ganhou nada – protestou Dennis –, foi empate.
– O quê? Eu te deixei na mão... quer dizer, na asa, quer dizer... ah, você entendeu, eu ganhei de você! – Dennis murmurou:
– Ah, Anna você é tão infantil! Não vivemos aqui pra brincar lembra? Estamos de patrulha.
– Hum, lembro. – Anna olhou para o horizonte e em um tom dramático prosseguiu – Principalmente por que, está noite será lembrada como a noite em que o Garoto-Morcego perdeu numa corrida para uma garota, a Fênix!
 Anna começou a rir e Dennis também.
– Da pra me dizer, por que você insistiu tanto em vir comigo?
– Hum, eu queria um tempo pra conversar com você.
 Dennis e Anna observaram em silêncio o movimento da cidade por instante, até que Dennis disse:
– Imagino que você deva estar tão intrigada quanto eu. – Anna franziu a testa.
– Hãn?
– É que a gente nunca viu nada desse tipo, pessoas desaparecendo por aí sem explicação e outras, enlouquecendo e se matando, é bizarro! – Anna declarou.
– Dennis não era sobre isso que eu queria falar.
– Ah não?
– Não. A decisão que você fez, colocando Julie e Junior na equipe, não tá sendo nada fácil para nós aceitarmos.
– Mas Anna, não era você que estava apoiando eles?
– Em ajudá-los com a mutação. E não estou reclamando, eu gosto deles.
– Então do que tá falando?
– Tá na sua cara, Dennis, que você não tá gostando de nada disso, você também não os quer na equipe, mas tá fingindo que não se importa.
 Dennis revirou os olhos.
– Ei, você não é obrigado agradar ninguém tá?
– Anna eu não tenho problema nenhum com a Julie ou Junior, pelo contrário, eu gosto deles na equipe, nós, Feras Noturnas deixamos de ser cinco para sete! Eu só não quero que eles tragam confusão. O Pedrinho, a Carolina e a Alice não se dão bem com eles e eu não quero inimizades.
– Entendo, também não quero mais inimigos. – Dennis olhou para Anna.
– Se não quer inimigos, por quê você tá procurando tanto aquele garoto do Refugio dos Lobos? – Anna inclinou a cabeça.
– Quem?
– Mateus Aguiar. Desculpa é que eu vi um foto dele no seu computador.
 Naquele momento, Anna anotou em uma agenda mental que assim que chegasse em casa, iria colocar um senha em seus arquivos.
– Ah. É que... – Anna tossiu – ele é um dos mutantes que pertenceu ao exercito do Refugio dos Lobos que ainda não foi encontrado vivo ou morto e os pais dele, lá em São Paulo, ainda devem estar sofrendo com a falta do filho, então para o bem dele, da sociedade e dos pais dele, seria bom que ele fosse encontrado.
– Ah tá, mas você se esqueceu de mencionar de que ele tentou me matar...
– Dennis? – Anna lhe chamou a atenção – Assim como você, ele estava sendo enganado.
– E Anna é provável de que ele esteja morto, você também viu quando Priscilla o apunhalou.
– Mas se está morto, por que nem um vestígio de seu corpo foi encontrado, além de um rastro de sangue que levava em direção para um matagal?
 Dennis abriu a boca, mas não teve resposta.
– Tudo bem, já entendi, mas você já parou pra pensar se encontrar aquele lobisomem vai ser uma coisa boa ou ruim?
 Anna olhou para baixo e lembrou-se da época em que lutava pelo seu primo, mesmo ele tendo declarado guerra contra ela e com todos a sua volta lhe dizendo que ele não iria voltar. Os olhos de Anna se encheram de lágrimas, Anna não conseguia entender porque ajudar Mateus Aguiar era tão importante pra ela.
– E quanto ao psicólogo? – Perguntou Anna, ainda de cabeça baixa percebeu que Dennis demorava a responder. – Tudo bem?
– Sinceramente, eu não sei dizer ao certo. – Respondeu ele em um tom sombrio.
– O que ouve?
– Depois das últimas férias, mesmo me sentindo bem, pedi aos meus pais que levassem a um psicólogo, como prometi. A Dra. Cristine é bem legal, contei tudo sobre min pra ela... é claro que não contei sobre a parte de eu ser um fera noturna e que sou o Garoto-Morcego. – Anna perguntou:
– Bom, mas e o que ela disse sobre...?
– A psicose? Ela, não acreditou que houvesse algo de errado comigo, mas depois que eu falei sobre tudo que eu via, ouvia e fazia, a doutora ficou muito receosa e indicou a minha mãe, que me levasse para fazer uns exames com um psiquiatra... Dra. Cristine acredita que eu possa estar iniciando uma esquizofrenia. – Anna arregalou os olhos.
– O quê? Uma esquizofrenia? Mas como você... você não pode... você tem idade pra ter essa doença?
– Muita gente acha que só se manifesta na faze adulta, mas também pode aparecer na adolescência.
– Dennis você não acha que essa sua psicóloga não estava sendo um pouco precipitada com isso? Você tá ótimo!
– Eu sei Anna, mas aí seria o quê? A palavra de um garoto perturbado contra a de uma profissional?
– Pelo que eu sei a esquizofrenia não tem cura não é? Apenas tratamento.
 Dennis balançou a cabeça confirmando.
– Sabe Anna, eu sempre soube que eu não era normal. Na escola eu nunca fui mau aluno, mas também nunca fui bom, nunca tive muitos amigos, sempre fui desinteressante para as garotas, gostava de fazer desenhos bizarros... nunca me importei em ser diferente, até que alguém me disse que eu realmente era diferente... – Dennis olhou para Anna – Que eu tenho um problema.
– Dennis, eu sinto muito. Mas eu acho que você não devia esquentar com isso. Olha só pra você! É um excelente desenhista, já salvou o mundo duas vezes, se tornou o líder dos Feras Noturnas, é um herói, até mexeu com o coração de alguém. – Dennis franziu a testa.
– O quê?
 “E caramba, falei demais!” Pensou Anna.
– A questão é que, é só um exame não é? Com certeza só querem o melhor pra você. Dennis você é um garoto incrível e nunca vai deixar de ser.
 Dennis fez um sorriso torto.
– Obrigado Anna. – Dennis a abraçou – Você é que é incrível.
– E também sou mais rápida – acrescentou ela –, não se esqueça disso.

***

 Naquela mesma noite, na Barra do Ceará. Entre os moradores da Rua de Anna, havia um senhor de 65 anos de idade conhecido como Seu Geraldo. Ele estava voltando de um evento religioso, dirigindo seu carro, àquela hora da noite, ouvindo "O Melhor do Brega" em seu rádio, Seu Rogerio era o único sinal de vida naquela rua. Ele estacionou o veículo em frente a sua casa e saiu do carro para abrir o portão de sua garagem.
 Quando chegou a sua calçada, Seu Geraldo ouviu um miado, ele olhou em volta e no telhado da casa vizinha, à direita, viu um gato siamês aflito miando para ele. Era seu gato de estimação, Zezinho.
– Ô meu Zé, tá fazendo o que aí? – Perguntou Geraldo.
– Miau! – Respondeu o gato.
 Seu Geraldo se aproximou do gato e estendeu os braços para ele.
– Venha cá, vem. Desce daí!
 O felino estudou o espaço e se jogou nos braços do senhor, que cambaleou um pouco, mas conseguiu se manter em pé. De repente, a música no rádio de seu carro, parou de tocar e começou a emitir, um som semelhante a um assovio, como e estivesse em interferência. Uma rajada de vento percorreu pela rua, sacudindo a copa das árvores, Seu Geraldo olhou para o céu, que estava sem nuvens ou se quer sinal de chuva.
 As luzes de todos os postes da rua começaram a piscar, Geraldo não conseguia entender o que estava acontecendo e então, viu um estranho objeto pairando no céu, como não havia luar naquela noite, ele não pode distinguir o que era. Mas pode ver que era grande e silencioso. A família dele que ainda estava acordada a sua espera, ouviu gritos de pânico de Seu Geraldo, Fábio o mais velho dos três filhos correu imediatamente para a porta de casa, quando viu um clarão do lado de fora, tão forte como um relampejo.
 A esposa de seu Geraldo e seus outros filhos, também ouviram seus gritos e também foram ver o que estava acontecendo, mas do lado de fora de casa não encontraram nada além de um carro ligado com a porta aberta, tocando ''O Melhor do Brega" no rádio.
 Ao Amanhecer, Anna foi ao quarto de Dennis para acordá-lo. Anna sentou em sua cama e o acordou.
– Dennis? – Chamava Anna.
– Hãn? Anna que horas são?
– São dez para as nove, da manhã eu...
– Ah, Anna o que você quer a essa hora da manhã? – Dennis se virou para o outro lado.
– Dennis me escuta, tem algo que você vai querer saber.
 –O que foi? – Perguntou Dennis ainda dormindo.
– Mais uma pessoa desapareceu ontem à noite. – Dennis olhou para Anna imediatamente.
– Aonde aconteceu?
– Aqui na cidade... – Dennis sentou-se com um pulo.
– O quê?
– Foi um vizinho nosso.
– Então quer dizer, que...
– Os sequestradores... – completou Anna – ainda estão por aqui.
 Assim que as autoridades foram informadas sobre o desaparecimento de Seu Geraldo, a cidade toda voltou à atenção para a Barra do Ceará. Policiais interditaram toda a área em volta do carro e da calçada de Seu Geraldo, investigadores examinavam todo o local como se o corpo do senhor de 65 anos tivesse sido reduzidos a milhares de grãos de pó. Dennis ainda não conseguia acreditar que o fato de o segundo desaparecimento ter acontecido na mesmo cidade, talvez o sumiço de Seu Geraldo, poderia ter uma causa diferente, achava ele, mas Dennis tinha toda a certeza que quem havia levado Geraldo, foi o mesmo que levou todos os outros desaparecidos do nordeste.
 Enquanto Dennis organizava uma reunião de emergência com Junior, Carolina e Julie, Anna tentava poder falar com o filho mais velho de Geraldo, pois ele era um velho conhecido seu e estava na tentativa de conseguir informações com ele. Jornalistas também aproveitavam a situação para gravar matérias, entrevistando toda a família da vítima. Um deles que falava com Fábio, o filho mais velho de Geraldo.
– Porque acha que levariam o seu pai? – Perguntava a jornalista.
– Eu não sei – respondeu Fábio aflito –, não faço ideia porque levariam o meu pai, ele era tão bom com todo mundo, não tinha inimigos... não que eu saiba. Não sei o que está acontecendo nessa cidade, mas as pessoas deviam ficar mais... atentas.
– Obrigada.
 Assim que o cinegrafista desligou a câmera, Pedrinho apareceu com uma câmera filmadora, focando no rosto do garoto, junto com um microfone rosa de brinquedo que Alice apontou para a boca de Fábio.
– Olá, bom dia. Uma palavra para o Alice-babado-forte.com? Fábio é verdade que o termino do seu namoro, teve haver com a garota nova do bairro?
Fábio franziu a testa.
– O quê?
 E então Anna, veio e agarrou Alice pelo pescoço.
– Tudo bem Alice, sem perguntas, por hoje é só.
– Mais o que? – Anna voltou a dizer.
– Pedrinho desligue a câmera, por favor. Sinto muito pelo seu pai Fábio.
– Pedrinho se você desligar essa câmera, eu mato você! – Alice sorriu para a câmera filmadora e disse: – Pois é gatinhos da titia, esse foi Alice-babado-forte.com de hoje, beijinhos até a próxima.
 Enquanto isso na reunião, todos conversavam na sala do cinema. Dennis andava de um lado para o outro, ainda analisando os fatos. Junior não prestava muito atenção no que diziam, ele estava exausto devido a missão na noite anterior, ele ficava bocejando e cochilando o tempo todo, Carolina segurava em seu colo, o gato Xandre, apreensiva.
– Como isso pôde acontecer bem debaixo no nosso nariz? – Dizia Dennis. – Patrulhamos por toda a cidade de Fortaleza!
 Julie murmurou:
– Menos a Barra do Ceará. – Dennis continuou a falar.
– Não consigo acreditar. – Carolina falou:
– Dennis, não havia nada que a gente pudesse ter feito. Seja lá quem esteja fazendo isso, age sem deixar rastros e só ataca nos lugares mais imprevisíveis.
 Naquele instante, Anna, Pedrinho e Alice entraram no cinema. Com ansiedade Dennis perguntou:
– E então? Descobriram alguma coisa?
– Descobrimos que a história do desaparecimento do Seu Geraldo, bate com todos os outros casos que você nos contou. – Respondeu Alice.
– É isso mesmo – concordou Pedrinho–, sem sentido, sem explicação, mó loucura.
– Mas conseguiram alguma informação? – Dennis voltou a perguntar.
– Temos boas e más noticias – dizia Anna –, a boa é que ninguém acabou enlouquecendo, e se matando e a má noticia é que não temos nenhuma testemunha.
– Eu não entendi o que a boa noticia, tinha de bom. – Disse Junior.
 Anna, Pedrinho e Alice contaram para os seus amigos tudo que os familiares de Seu Geraldo falaram nas entrevistas, todos os detalhes da noite anterior. Carolina foi até o portão do cinema e olhou com certa frustração para os repórteres, investigadores e as pessoas curiosas que se aproximavam.
– O pior é que com todas essas pessoas amontoadas na rua, podem destruir qualquer pista que o sequestrador deixou. – Alice falou:
– Parece que o bafão foi tão grande, que até o gato da família foi levado.
 Anna sentiu um calafrio percorrer seu corpo e tomou Xandre dos braços de Carolina.
– Nós temos que deter quem esta fazendo isso!
– Mas o que, que a gente faz? – Julie perguntou a Dennis – Não temos um rastro desses caras, vamos fazer patrulha de novo?
– Não, por favor! – Choramingou Junior – Não me façam ficar acordada a noite toda mais uma vez!
 Dennis suspirou e voltou os olhos para Junior.
– Por mais que eu queira que todos nós, saiamos agora atrás desses sequestradores, não acho que seja uma boa ideia fazer isso.
– Legal! – Comemorou Junior.
– E depois, o desaparecimento seguinte sempre acontece em uma cidade diferente, isso que aconteceu aqui, foi só uma raridade.
Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar, foi o que você disse e olha o que aconteceu. – Falou Pedrinho.
– Eu sei, mas nós não encontramos nenhuma pista dos sequestradores na noite de ontem, é pouco provável que a gente encontre alguma coisa hoje!
– É, e eu não vou poder sair essa noite – disse Anna –, meu irmão ficou com o meu turno ontem à noite, hoje vou ter que ficar aqui no cinema.
– Então, já que não vamos sair essa noite, vou investigar sobre esses desaparecimentos. – Disse Carolina.
– Isso. – Aprovou Dennis. – Vamos investigar, tentar descobrir alguma coisa. Não vamos ficar parados. Feras Noturnas, dispensados.
 Junior e Julie se foram.
– Pedrinho, pegue a câmera – falou Alice – O Alice-babado-forte.com precisa de mais babados.
– Mas agora? – Resmungou Pedrinho – Eu tô com fome.
– Pedrinho seu balofo, comilão! Bora logo, se não eu corto seu salário.
 Pedrinho se entusiasmou.
– Eu vou ganhar um salário?
 Alice e Pedrinho também se foram.
– Carolina – chamou Dennis –, eu passo lá no Laboratório Noturno, daqui a pouco, tá legal?
 Carolina franziu a testa.
– Como assim você...?
 De repente Anna pôs o braço em volta do ombro de Carolina e disse:
– Pois é Carolina, lembra que você disse que ia examinar o Dennis?
– Hãn? – E então Anna piscou um olho para Carolina.
– Ah, claro que eu lembro! – Ela mentiu – Desculpa, tinha me esquecido. Vai lá que horas?
– Hum, daqui a meia hora pode ser? – Perguntou Dennis.
– Pode.
– Valeu.
 Dennis subiu a escada e assim que se foi, Carolina se voltou para Anna com um olhar fulminante.
– O que foi que você armou pra min agora?

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