sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Cap. 2

2. Um Grande Mal-Entendido

 Um pânico e um sentimento de ofensa percorreu sobre Carolina, Dennis a olhava intrigado, achou que ele não havia gostado de seu vestido, mas imediatamente deixou de achar e passou a ter certeza.
– Hãn, você não gostou? – Perguntou Carolina, com receio.
– O quê? Claro que eu gostei, é que... – Anna o interrompeu dizendo:
– Carolina está vestida assim, por que ela vai ter uma noite especial hoje.
 Carolina olhou confusa para Anna que lhe deu um abraço de lado e respondeu com um olhar que lhe dizia: Lhe explico depois. Dennis se dirigiu ao painel de controle do jato e perguntou:
– E como tem sido esses meses lá na Barra? – Pedrinho respondeu.
– Conseguimos diminuir o número de criminalidade no bairro, com a ajuda de equipes da policia que agora, patrulham por lá vinte e quatro horas.
– E o Jato Noturno? – Alice respondeu.
– Milagrosamente, conseguimos pagar o fornecedor do combustível, meu primo nos deixou muitas dividas.
– E aos mutantes desaparecidos do exercito do Refugio dos Lobos? – Carolina respondeu.
– Todos que ainda restavam, foram encontrados, mas cinco deles ainda permanecem sob custódia dos humanos, sendo usados como cobaias em laboratórios, esperando serem curados...
– Os humanos nunca vão conseguir a cura! – Interrompeu Alice.
– Vamos ajudá-los – prometeu Dennis – de algum jeito, nós vamos.
– E... – Continuou Carolina. – Ainda a relatos de pessoas que viram mutantes por todo o país... – Anna falou:
– Ainda a um que permanece desaparecido... Mateus Aguiar. Procuramos por toda a parte, mas nem sinal dele.
 Dennis percebeu um tom de angustia na voz de Anna, mas sem intender o motivo disse:
– Tudo bem, vamos continuar procurando. – Anna franziu a testa.
– Então, s.r. Dennis, será que a gente pode saber: por que a policia estava atrás de você?
– Sabe como é a policia, a gente sempre tentar fazer o bem às pessoas, mas acabamos com cara de bandidos!
– Um hum. – Disse Anna, pedindo mais explicações.
– Tentei ajudar um cara, chamado Rogério da Silva, a esposa dele foi sequestrada e ele... Não aceitou isso muito bem. Tentei ajudá-lo, mas ele acabou se matando.
– Nossa! – Alice se espantou. – Que trágico.
– Pois é e o pior, é que isso também está acontecendo com outras pessoas.
– O quê? – Perguntou Carolina.
– Explico melhor sobre isso no Laboratório Noturno, quando eu chegar na Barra do Ceará. Preciso que me levem pra casa, meu pai deve estar me procurando.
 Levaram o Jato Noturno, ao apartamento de Dennis, abriram o alçapão abaixo da aeronave e Dennis aterrissou na sacada do prédio com suas próprias asas. Em seguida, pegou o elevador e enquanto descia ao seu andar de destino, Dennis trocava de roupa, mas assim que entrou em seu apartamento se deparou com seu pai, Francisco.
– Dennis?
– Pai? – Retrucou Dennis.
– Onde você se meteu?
– Eu... estava te procurando? – Dennis abriu um sorriso inocente.
– Aonde? Procurei por você, no prédio inteiro!
– Ahmmm, é sério? Eu estava aqui o tempo todo.
 O pai dele, não demostrou estar convencido, mas não quis discutir.
– Tá bom, vamos logo, sua tia está te esperando.
 Em menos de uma hora, Dennis já estava de volta ao bairro de sua prima, quando chegou à Barra do Ceará, estava de noite, mas as pessoas nas ruas pareciam não se portar.
 Aos olhos de Dennis, o bairro parecia estar sempre em festa, músicas de todos os ritmos, vinham de todos os lugares, crianças brincavam nas ruas e vizinhos conversavam uns com outros, em suas calçadas.
 Quando chegaram, na rua que Anna morava, Dennis notou que a casa dela – A Lanchonete Srtª Tereza – estava diferente. Talvez tenha sido reformada, pensou ele. E se tornara mais popular também, pois havia uma grande aglomeração de pessoas na frente. Tantas pessoas que o pai de Dennis teve que estacionar o carro na calçada do outro lado da rua.
– Boas férias, Dennis. – Se despediu Francisco.
– Tchau pai.
 Quando Dennis saiu do carro, Anna já havia o avistado. Estava atravessando a rua de braços abertos.
– Dennis! – Exclamou ela e o abraçou.
– Oi de novo Anna, qual é a do... – Quando ia perguntar o motivo da lotação, ele notou o novo letreio da lanchonete. – Cinema?
– É isso aí. – Concordou ela.
 Os dois observaram o grande outdoor com lâmpadas cintilantes que diziam: “Cine Tapete Vermelho”.
– Depois que a lanchonete foi reformada, por causa daquele incêndio que certo alguém causou...
– Sim! Eu lembro. – Interrompeu Dennis.
– Pois bem, o João e a minha mãe, acreditam que pra poder pagar as reformas, teríamos que deixar a lanchonete mais chamativa do que um casino e no final das contas... acabou se tornando um cinema.
– Entendi, mas... Cine Tapete Vermelho?
– Eu sei, o nome é horrível, mas sabe como é a minha mãe, não aceita sugestões.
 Dennis olhou para os cartazes dos filmes em exibição, entre eles estavam Apollo 18, Homem-aranha 3, O Alto da Compadecida, Psicose, A Lagoa Azul, E.T. - O extraterrestre, Titanic e outros que não eram novidade nos cinemas.
– Hãn, ô Anna? – Disse Dennis – Vocês sabem que esses filmes, não são lançamentos, não é?
– Sabemos disso, é que, como acabamos de abrir o cine e estamos exibindo alguns clássicos por enquanto.
 Dennis avistou seu primo João em uma cabine, pouco espaçosa, de bilheteria. Ele estava bastante sobrecarregado, sua testa estava coberta de suor, e suas mãos e sua boca não paravam um minuto. Dennis sabia que não era uma boa ideia falar com ele naquele momento, decidiu conversar com ele mais tarde, mas antes que Dennis entrasse no cinema, Anna gritou:
– João, olha quem tá aqui!
 João deu duas olhadas rápidas para Dennis e disse:
– E aí Dennis, tudo bem? Hãn, como é? Dois ingressos para Titanic?
– Hum, estou bem e... você, como vai?
– Foi mal, O Alto da Compadecida está esgotado. – João deu mais uma olhada rápida para Dennis – Já tirei as coisas do meu quarto, pode ir lá. Hãn, desculpe A Lagoa Azul só será exibido na semana que vem.
– Vem Dennis. – Anna chamou seu primo para entrar.
 Entrando no cinema, Dennis percebeu que o lugar estava bem diferente, com um toque de luxo, que de cara, já sabia que era obra de sua tia.
 As paredes eram pintadas em um tom vermelho escuro, por todos os lados havia palmeiras, lâmpadas discretas embutidas no teto, deixavam o local pouco iluminado, na entrada havia um longo tapete vermelho que atravessava toda a sala em direção ao palco da lanchonete, onde havia um telão branco, na esquerda e na direita havia fileiras de cadeiras; lembrando uma igreja, na direita do palco havia um pequeno balcão onde Dona Tereza servia pipoca, refrigerantes e doces.
 Enquanto se dirigiam a escada, Dennis e Anna ouviram alguém gritar:
– Ah eu não acredito!
 Denis olhou em volta e viu Alice, Pedrinho e Carolina vindo em sua direção.
– Dennis, achei que nunca ia chegar. – Alice o abraçou. – Que saudade de você!
– Sério? – Perguntou Pedrinho. – Parece que a gente viu ele a meia hora atrás.
 Carolina falou:
– Foi porque nós, realmente, o vimos à meia hora atrás, Pedrinho.
 Anna disse:
– Dennis, nós vamos assistir Apollo 18, quer ver com a gente?
– Quero, mas antes quero guardar minhas coisas.
– Tudo bem, mas a sessão vai começar daqui a pouco.
Dona Tereza surgiu para cumprimentá-lo, ela o abraçou forte e o encheu de carinho.
– Oh, Dennis meu sobrinho lindo! Estava contando os dias, pra te ver. Quer um chocolate?
Ela estendeu a mão e lhe ofereceu uma barra de Chokito. Mesmo desconfiando o comportamento de sua tia, Dennis acabou aceitando.
– Hum, obrigado. – Anna falou:
– Ô mãe, os pais dele não estão aqui.
 E então o rosto de Dona Tereza, mudou de uma forma, como se alguém houvesse lhe dado um banho de água fria.
– Ah moleque, me devolve esse Chokito! Vai logo guardar suas coisas se quiser ficar pra ver o filme!
 Essa parecia ser a sua única palavra, pois Dona Tereza deu as costas rápidamente, mas uma pontada de curiosidade lhe tocou a mente.
– Sabe Dennis, quando você foi embora nas últimas férias, os Feras Noturnas deixaram de ser cinco e se tornaram quatro, será que com a sua chegada, eles voltaram a ser cinco, hãn? – Dennis suspirou.
– Eu não sei tia, mas eu lhe garanto, se eu fosse um fera noturna lhe diria.
– Hum, sei. – Tereza apertou bem os olhos – Se comporte, ouviu Dennis? Não quero que os meus clientes sejam incomodados por crianças enxeridas!
 Dona Tereza empinou o nariz e deu as costas. Dennis respirou fundo e disse:
– Como quiser titia! Mas fique à senhora sabendo, que não precisa se preocupar comigo. Estou pouco me lixado, pra essa porcaria de cinema, falou?
 De repente, Anna viu a vida de seu primo passar diante de seus olhos. Dona Tereza se voltou para Dennis, com um olhar demoníaco e perguntou:
– O que foi que disse? – Anna abriu um sorriso e respondeu.
– Ah, nada! Ele só disse que vai guardar as coisas e que não tem que se preocupar com ele.
– Ah, foi? – Ela ficou confusa. – Hum, acho bom.
 Dona Tereza voltou para pipoqueira.
 Dennis percebeu que Anna, o olhava indignada e então perguntou:
– O que foi? – Anna suspirou.
– Achei que você tivesse prometido que ia deixar de ser mal.
– Ahm não. Eu disse que ia deixar de ser encrenqueiro, mas também não disse que ia voltar a ser bobinho e ingênuo.
  Dennis achou que iria ouvir mais questionamentos de sua prima, mas ao invés disso ela sorriu pra ele.
– O que foi? – Perguntou Dennis.
– É bom ter você de volta. – Dennis também sorriu.
– Ok, vou guardar minhas coisas.
 Carolina observava Dennis subir a escada, da forma mais discreta possível, mas quando voltou a dar atenção aos seus amigos, reparou que todos eles olhavam pra ela. E se perguntou se algum deles havia falado com ela.
– Porque estão olhando pra min? – Anna limpou a garganta.
– Então... sobre a sua noite especial...
– Ah, sim, pode explicar o que quis dizer com isso? – Pedrinho respondeu:
– Sabemos o quanto você é caidinha pelo nosso patrão Dennis.
– Então já que você se produziu toda, só pra ele – dizia Alice –, vamos lhe dar um noite especial. – Carolina perguntou:
– O quê? – Anna respondeu.
– É isso aí, enquanto Dennis estiver aqui, seremos os seus "cupidos".
– Mas como assim? – Carolina se apavorou. – O que vocês vão fazer?
 Alice falou:
– Você verá, minha queridinha, você só precisa agir naturalmente.
– Não! – Discordou Carolina. – Não, não, não quero que façam nada disso!
– Tarde demais. – Disse Anna. – Galera, em suas posições, Pedrinho vai.
– Pode deixar amor. – Pedrinho subiu a escada.
– Pra onde ele vai? – Perguntou Carolina.
– Tudo que precisa saber – dizia Alice – é que essa é a noite da sua vida.
– E isso é bom ou ruim?
                                                          
 Dennis não conseguia conter o entusiasmo por estar de volta à casa de sua prima, sua vida era terrivelmente normal fora daquele lugar. Mas quando entrou no quarto de seu primo, teve más lembranças das últimas férias.
 Ele se voltou contra seus amigos e sua família, por motivos de raiva e incertezas, inclusive até desenvolvera uma certa psicose – algo que ainda estava tentando tratar com um psicólogo – Depois que descobriu que seus amigos comentavam em tirá-lo da liderança dos Feras Noturnas, Dennis não havia lidado muito bem com isso, achava que estavam o descartando.
 Mas agora ele já estava com 15 anos, decidira recomeçar tudo do início, enquanto tirava as roupas e seus pertences de sua mochila, Dennis ouviu alguém bater na porta. Ele reconheceu a voz, era Pedrinho.
– Pode entrar. – Disse Dennis.
– E aí Dennis.
– E aí. – Dennis riu.
– Tem uma coisa que você precisa saber.
– Sério? O que é?
– É que... Tem uma mina lá embaixo, no cinema que tá doidinha por você, cara. – Dennis suspirou.
– Outra? Qual é o problema das garotas desse bairro?
– Eu sei que você não é dessas coisas, Dennis, mas dessa vez, me disseram que querem "coisa séria".
– "Coisa séria"? Tá legal, me fala sobre essa garota, é uma garota né? Qual o nome dela?
– Ah você sabe o nome dela, é a Ca... – Pedrinho tossiu. – O nome dela... O nome dela é...
– Fala!
– Hum, olha eu vou te dar um dica, ela é da nossa equipe.
– Equipe de quê? – Pedrinho revirou os olhos.
– Feras Noturnas, dã!
– Aaaaah... é sério?
– Seríssimo. Mas pode ficar tranquilo, não é a sua prima, por que ela é minha!
– Claro Pedrinho. – Desdenhou Dennis. – Mas me fala mais sobre essa garota.
– Ahm... hum... ela é uma gata.
 E no mesmo instante Pedrinho teve certeza que Dennis já sabia quem era.
– Mas é claro! – Disse Dennis – Como eu pude não ter notando antes?
– Pois é, ela disse que sempre foi afim de você.
– Verdade? Por que, se bem que eu sempre tive uma quedinha por ela.
– É sério? Todo mundo acha ela tão esquisita!
– Ela é diferente! Gosto de garotas diferentes, Pedrinho quer saber? Eu vou falar com a Alice agora e fazer uma coisa que eu sempre quis fazer!
– É isso aí garoto, arrebenta! Pera aí, o quê? Alice?
 Mas Dennis já havia saído do quarto. Enquanto ele descia, Dennis viu Alice no pé da escada, parecia estar lhe esperando.
– É uma noite linda, para um bom filme romântico, não acha? – Perguntou Alice.
– Acho.
 Dennis ajustou seu dispositivo R.N.G., não era uma boa hora para os seus instintos de seu animal interior vierem à tona.
– A próxima sessão será Titanic, topa?
  Carolina e Anna estavam sentadas observando o desempenho de Alice.
– O que será, que ela tá falando de min hein? – Perguntou Carolina, que estava nervosa.
– Carolina, calma ela tá se saindo bem.
 Enquanto isso na conversa de Dennis e Alice
– E eu conheço uma pessoa perfeita pra você convidar. – Falou Alice.
– Ah é? – Disse Dennis – Eu também conheço essa pessoa e tô olhando pra ela agora.
– É mesmo? Porque... espera aí.
 Alice se inclinou para a esquerda, depois para a direita e percebeu que os olhos de Dennis seguiam seus movimentos.
– Mas você tá olhando pra min! – Dennis deu uma risada.
– Deve ser, porque você é essa "pessoa".
 Alice lançou um olhar de pânico para Anna e Carolina, que se levantaram de seus lugares, e foram ver o que estava acontecendo.
– Dennis – dizia Alice – eu acho que tá acontecendo um pequeno engano.
– Shhh – Sussurrou Dennis – Não diga nada.
 E quando Alice se deu de conta, Dennis havia lhe beijado. De longe Dona Tereza, que observava tudo murmurou:
– Ô moleque safado! Além de ser uma peste, também é tarado.

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